sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O “Novo” Calvinismo X O “Velho” Calvinismo - Pr. Juan De Paula

Minha “conversão” ao calvinismo se deu em 2004 ao iniciar o Segundo ano do curso de teologia no seminário por influência de um professor que se tornou um grande amigo pessoal. Já havia tensões em minha mente sobre a soberania de Deus na salvação em 2002, mas com a descoberta do método histórico-crítico e algumas inclinações neo-ortodoxas no 1º ano, pude “resolver” as tensões quanto à predestinação em minha mente abrindo mão da inerrância bíblica. Nas férias, pude perceber que abrir mão da inerrância me traria sérios problemas na mente e no coração e precisava de substância para crer de forma evangélica. Foi aí que estudei a confissão de Fé de Westminster e ponto: tornei-me um calvinista fervoroso e vigoroso na defesa da soberania de Deus e das doutrinas da graça, convicções que amo, professo e defendo até hoje e oro para que permaneça assim até o fim da minha existência.

Porém agi com muita falta de sabedoria e achava que estava certo assim. Por um lado eram tensões que precisava resolver no coração, por outro lado, espelhava a simbiose entre a fé reformada e o tradicionalismo. Daí que ao iniciar as leituras em John Piper e depois descobrindo toda uma tropa (Wayne Grudem, Mark Driscoll, C. J. Mahaney, Tim Keller) que foi denominada “novo calvinismo” recentemente pela revista Times como a 3º idéia mais influente nos EUA (Glória a Deus por isso!) fui despertado para algumas questões.

O “novo” calvinismo x o “velho” calvinismo

O movimento que foi denominado “novo calvinismo” se assemelha ao “velho” calvinismo nas convicções doutrinárias. Crê no conteúdo das confissões de fé reformadas e as enxerga como fiéis intérpretes das Escrituras. Crê nas doutrinas da graça e na soberania de Deus na salvação e afirma isso com veemência. Porém assume algumas posturas diferentes no campo prático e pastoral.

1 – O “novo” calvinismo tem uma postura dialogal com outros cristãos. O “novo” calvinismo observa outras vertentes do cristianismo e absorve o que há de melhor. O “novo”calvinismo busca ter humildade para não se achar melhor do que outros e busca sabedoria para se articular nas controvérsias. Conforme salientou Mark Driscoll: “O velho calvinismo era temeroso e desconfiado dos outros cristãos, queimando pontes. Essa nova corrente faz o contrário” ou seja, para Driscoll, o “novo” calvinismo constrói pontes entre os cristãos. A máxima de Richard Baxter é bastante relevante nesse sentido: “No que é essencial, unidade, no que é não-essencial, liberdade e em todas as coisas, caridade”.

2 – O “novo” calvinismo dialoga com a contemporaneidade. Não olha com desconfiança para a pós-modernidade, mas pega o que há de melhor combatendo o relativismo. Não se assemelha ao mundo no conteúdo, mas procura comunicar melhor ao mundo a mensagem adquirindo uma prática litúrgica bíblica e ao mesmo tempo contextualizada entendendo a liberdade que Jesus Cristo dá a sua Igreja nesse sentido. Boa liturgia, bíblica e contemporânea nos cânticos, com conteúdo e relevância.

3 – O “novo” calvinismo é positivo. Não se arma numa fortaleza de defesa, mas também não se contamina com as tendências atuais somente por estarem na moda. Procura manter os distintivos e afirmá-los. Na prática, não investem tempo nem energia para desconstruir os métodos pragmáticos de crescimento de igrejas, mas procuram buscar nas Escrituras os métodos corretos. Não busca ser polemista, mas afirmar a verdade bíblica em amor. Não quer ser pragmático e crescer a qualquer custo, mas busca crescer com os meios bíblicos sem faltar com a relevância e ficar apenas em contextos minúsculos.

4 – O “novo” calvinismo é fervoroso e carismático. John Piper salienta “por um lado, temos os conservadores, extremamente meticulosos com as idéias acerca de Deus e com a preocupação de ter as doutrinas corretamente estabelecidas, aos quais digo: amém! Estou com vocês. Por outro lado, temos os carismáticos, perdidamente simplórios com relação à doutrina e entregues à emoção – levantam as mãos e batem palmas, seus pés pulam e eles sentem algo diferente, caso contrário o Senhor não está naquele lugar! Também estou com Eles! Odeio a separação entre os dois. Farei todo o possível, dentro das minhas forças e enquanto estiver vivo, para ajudar essas pessoas a enxergarem que elas estão dando a Deus apenas à metade da sua glória. Conhecer a Deus verdadeiramente e não sentí-Lo de forma devida é dar-Lhe apenas metade de Sua glória. Sentí-Lo de forma devida e não conhecê-Lo verdadeiramente é dar-Lhe apenas metade de Sua glória. Devemos dar a Deus toda a Sua glória, assim como Jonathan Edwards destacou.” (PIPER, O alvo do aconselhamento bíblico é a glória de Deus In Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, vol. 6) O “novo” calvinismo, se não em todos os seus adeptos, mas em considerável parte, aceita a atualidade, contemporaneidade e continuidade dos dons extraordinários dados pelo Espírito Santo em detrimento do cessacionismo defendido por boa parte dos eruditos reformados. O “novo” calvinismo posiciona as afeições cristãs, parodiando Jonathan Edwards, em seu devido lugar com bom uso das manifestações físicas.

5 – O “novo” calvinismo busca o prazer cristão e a felicidade em Deus. John Piper chama isso de hedonismo cristão. Ainda que alguns fiquem chocados com o termo, ele significa prazer e o ser humano foi criado para glorificar a Deus e se deleitar Nele, perdeu essa alegria na queda, foi redimido por Cristo para se deleitar Nele novamente em reconciliação e será glorificado para a alegria eterna com Deus. O prazer cristão é a felicidade em Deus vivida hoje em todas as esferas da vida. Como diz John Piper: “Deus é mais glorificado em nós, quando estamos mais plenamente satisfeitos Nele”, sentença que guia a sua vida e pensamento e que está exposta no livro “Teologia da Alegria” ou “Em Busca de Deus”. A teologia do prazer cristão tem guiado esse blog nos últimos meses. Isso choca porque ensina que a obediência como dever é legalismo (parodiando Russell Shedd no prefácio ao livro).

6 – O “novo” calvinismo não é institucional ou denominacional. É a fé cristã vivida com intensidade, paixão e fervor pela glória de Deus seja de que denominação evangélica for e em que instituição influenciar. Não se prende a instituições e denominações, mas busca serví-las e contagiá-las.

Cuidados com o “novo” calvinismo

1 - Os propagadores do “novo” calvinismo têm recebido atenção da mídia e como a nossa tendência no coração é fabricar ídolos então corre-se o risco de se idolatrar essas pessoas e tratá-las como celebridade. O foco e o alvo é sempre Jesus Cristo , encarnação da glória de Deus revelada na face dele entre nós.

2 – O “novo” calvinismo não é um fim em si mesmo e nem deve ser idolatrado e adorado como o sistema filosófico mais plausível (ainda que a cosmovisão cristã faça isso), mas o “novo” calvinismo deve buscar colocar Deus no centro de todas as coisas em sua supremacia e majestade e buscar a felicidade dentro disso.

3 – O “novo” calvinismo não tem nada de novo. É a fé cristã em sua expressão reformada dialogando com vitalidade e relevância no século XXI baseado em Romanos 12:2 influenciando o mundo sem se moldar, sem tomar a forma dele, transformando-o com a mente e o coração em Cristo e em nova vida para a glória de Deus.
4 – Ainda estou muito longe de ser alguém totalmente satisfeito em Deus. Ore muito por mim, prezado (a) leitor (a).

Terminando

Viva para a glória de Deus de forma apaixonada!
Busque ser bíblico em tudo!
Seja alegre e feliz em Deus!

Fonte: Em Busca de Deus

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Incapacidade Da Vontade Humana

por A. W. Pink

Está na esfera da vontade humana a capacidade de aceitar ou rejeitar o Senhor Jesus como Salvador? Visto que o evangelho é anunciado ao pecador e que o Espírito Santo o convence de sua condição de perdido, está no poder de sua própria vontade resistir ou render-se a Deus? As respostas destas perguntas definem nossa opinião a respeito da depravação do homem.

Todos os crentes concordam com o fato de que o homem é uma criatura caída. Mas, freqüentemente, é muito difícil determinar o que eles querem dizer ao utilizarem o vocábulo “caído”. A impressão geral parece ser esta: o homem não está mais na mesma condição em que saiu das mãos do Criador; ele está sujeito a enfermidades e herdou tendências perversas; mas, se empregar ao máximo as suas habilidades, o homem será, de alguma maneira, capaz de desfrutar o máximo da felicidade.

Oh! quão distante isso está da terrível verdade! Enfermidades, doenças e a morte física são apenas ninharias em comparação com os resultados morais e espirituais da Queda! Somente quando examinamos as Escrituras Sagradas, podemos obter alguma idéia correta a respeito da extensão dessa terrível calamidade. Quando dizemos que o homem é totalmente depravado, estamos afirmando que a entrada do pecado na constituição humana afetou todas as partes e todas as faculdades do homem. A depravação total significa que o homem, em seu corpo, alma e espírito, é escravo do pecado e servo de Satanás — está andando de acordo com “o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Ef 2.2).

Não precisamos argumentar em favor desta verdade; é um fato comum da experiência dos homens. O homem é incapaz de atingir suas próprias aspirações e concretizar seus próprios ideais. Ele não pode fazer as coisas que gostaria de fazer. Existe uma incapacidade moral que o paralisa. Esta é uma prova de que ele não é um ser livre e que, ao contrário disso, é um escravo do pecado e de Satanás. “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos” (Jo 8.44).

O pecado é muito mais do que uma atitude ou uma série de atitudes; é a constituição do próprio homem. O pecado cega o entendimento, corrompe o coração e separa o homem de Deus. E a vontade do homem não escapou dos efeitos do pecado. A vontade está sob o domínio do pecado e de Satanás. Portanto, a vontade não é livre. Em resumo, as afeições amam e a vontade escolhe de acordo com o estado do coração; e, visto que este é enganoso e desesperadamente corrupto, mais do que todas as coisas, “não há quem entenda, não há quem busque a Deus” (Rm 3.11).

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Jesus, os Fariseus e o Livre-Arbítrio

por John Piper

Para muitos, hoje em dia, é intrigante que Jesus coloque tal valor nos direitos soberanos da liberdade eletiva de Deus, a ponto de falar da maneira como o faz àqueles que O rejeitam. Ele fala de maneira a impedi-los de vangloriarem-se, como se pudessem anular os propósitos últimos de Deus. Em João 10.25-26, por exemplo, Jesus respondeu aos céticos que exigiam mais e mais provas: “Já vo-lo disse, e não credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito. Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas”. Pense nisto por um momento. Pense acerca do que significa e no fato que Jesus proferiu tais palavras a pessoas incrédulas.

Imagine-se como um fariseu ouvindo a mensagem de Jesus e dizendo a si mesmo: se Ele pensa que eu vou ser sugado para dentro desse movimento junto com coletores de impostos e pecadores, está louco. Eu tenho vontade própria e poder para determinar o meu próprio destino. Em seguida, imagine Jesus, sabendo o que se passa no seu coração e dizendo: “Você se vangloria em seu íntimo porque acha que tem o controle de sua própria vida. Você pensa que pode frustrar os planos máximos de meu ministério. Você imagina que os grandes propósitos de Deus na salvação são dependentes de sua vontade vacilante. Em verdade, em verdade eu lhe digo que a razão final pela qual você não crê é porque o Pai não o escolheu para estar entre as minhas ovelhas”. Em outras palavras, Jesus está dizendo: “O orgulho final da incredulidade é destruído pela doutrina da eleição”. Aqueles a quem Deus escolheu, Ele também os deu ao Filho; e aqueles a quem Ele deu ao Filho, o Filho também os chamou; e para aqueles que foram chamados, Ele deu sua vida; e para esses Ele deu alegria eterna na presença de sua glória. Este é o prazer do Pai.

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